Ana Beatriz Almeida
Dan Homey
“Da ancestralidade como existência
singular”, por Denise Ferreira da Silva
Exposição solo, Galeria Verve , São Paulo/SP , Brasil, 2022
A ancestralidade, mães, avós, irmãs, tias, suas estórias,
receitas e práticas, deusas e sacerdotisas, orixás… e se
fossem não somente guias para vida, mas lembranças de
que aquilo a que se chama vida é inseparável daquilo a
que se chama morte? E se nos recordassem de que a ex-
istência não é nada mais que um incessante movimento:
existir/deixar de existir?
Ao retirar a existência singular do espaço-tempo, ao
recordá-la nos corpos, no solo, nos rios, nos mares, nas
árvores e em todas as coisas viventes e não-viventes
que habitam as matas e as florestas, a ancestralidade
retorna o que chamamos de presente à infinitude, onde
a indiferença entre o tudo e o nada soletra plenitude.
Essa recompõe a memória, retornando-a ao momento desde
o qual ela deriva sentido, ou seja, ao que acontece. Nem
só ao que já acontece, nem ao que está acontecendo, mas
ao momento em que o que não aconteceu: a existência que
não chega a vir e, por isso, talvez, tenha se tornado uma
outra existência – a minha própria ou a sua existência –,
possível e significativa em sua singularidade.
As estórias e as práticas guiadas pelo princípio da an-
cestralidade devolvem existência àquilo que a memória,
quando guiada pelo tempo, só retém como imagem. Nas
coisas e em seus componentes – nas tatuagens, mar-
cas, cicatrizes; nas cores; nos sons, ritmos, tecidos; na
textura e no cheiro, e mesmo no amarelecido das fotos
ou no corte de cabelo revelador do tempo –, a ancestral-
idade desloca o tempo abstrato e retorna à plenitude
todo e qualquer evento e seu momento. Onde-quando todas
e quaisquer existências se revelam para além da vida
e da morte e, ao fazê-lo, expõe como a separação entre
as duas só serve ao pensamento e ao modo de existência
guiados pela temporalidade, a qual necessita de medidas,
de limites e de tudo que aqui possibilita a comparação,
de qualquer instrumento que estabeleça uma diferença,
porque disso depende a atribuição de valor.
A obra de Ana Beatriz Almeida nos recorda que lá, para
além da vida e da morte, não é uma passagem, o limite
entre um momento e outro, mas a infinitude ela mesma. A
infinitude, quero dizer, o tudo-nada, o lá onde-quando
todas as existências se tornam nada mais que versões de
estórias (im)possíveis. Ali, quero dizer, todo e qualquer,
nenhum lugar ou tempo, lá fora do espaço e tempo; onde
o tempo e o espaço encontram os significados que agora
reconhecemos. Lá onde estórias e práticas ancestrais
recordam, nos gravam e grafam não como unidade e identi-
dade, mas como a infinitude da potencialidade, da virtu-
alidade e da possibilidade, onde cada existente encontra
o sentido de sua singularidade.
Todas, ali sempre e também, somos uma + ∞ – ∞, uma + uma
(ou duas) + ∞ – ∞, mesmo quando nada mais do que refle-
timos quem poderia ter existido ou nunca chegou a ex-
istir; se, ao entrar em existência, uma outra composição
torna-se possível. Diante da ancestralidade, ninguém é
somente uma, nem sempre e somente a mesma, mas sempre
si e outra, si como outra: cada uma é si mesma a outra. Tam-
bém sempre todas as demais que já foi, já é, será e nunca,
e por isso sempre, poderá ou não existir. Na obra de Ana
Beatriz Almeida, nos encontramos na ancestralidade – de
cada uma de nós, em si e em cada outra pessoa – a existên-
cia singular.

